O Blog Olho no Lance entrevistou com exclusividade, Mario
Celso Petraglia, atual presidente do Conselho Deliberativo do Clube Atlético
Paranaense.
CAMPEÃO MUNDIAL,
SONHO OU REALIDADE?
Robson (Olho no
Lance) - Presidente, Mario Celso Petraglia, qual o caminho para que o
Atlético chegue ao título mundial tão sonhado por sua torcida? Isso é um sonho
ou uma realidade próxima de ser alcançada?
Petraglia –
Robson, nada se faz sem sonhos e continua sendo um sonho. Hoje mais fácil de
ser concretizado do que aquele que começamos em 1995. Por que ainda é um
sonho? Porque estamos ainda caminhando e
não sei se estamos na metade do caminho ou ¾ desse caminho, mas uma boa parte
da trajetória já percorremos.
Mas é necessário continuarmos em constante crescimento e
evolução para sermos um dos maiores clubes das Américas.
Robson – Para
chegarmos a esse nível, o que falta e o que é necessário?
Petraglia – A
nível de infraestrutura nenhum clube na América do Sul tem a infraestrutura que
temos. Agora necessitamos da segunda parte do projeto após o estádio e o CT
concluídos.
É a fase de passarmos de coadjuvantes a protagonistas no
futebol, entrando em todos os campeonatos avaliados que estaremos entre os
primeiros.
Isso depende ainda do entendimento, colaboração,
envolvimento e participação de nossa torcida, pois sem ela será impossível.
Robson - A Forbes
já avaliou o Atlético Paranaense como o 11º clube mais rico das Américas e
agora indica como o 25º, o que senhor pensa sobre isso?
Petraglia –
Aquilo está mal feito, incorporaram uma dívida do estádio que não nos pertence,
ou seja, estamos muito acima dessa posição com certeza.
De todo o projeto, o que está faltando é o aumento no número
de sócios torcedores. Hoje temos no plano de sócios, cerca de 20 mil
associados, mas necessitamos atingir 40 mil associados no mínimo. Se não
chegarmos a esse número de sócios que entendam, colaborem e ajudem a
transformar esse sonho em realidade, o caminho será muito mais complicado. Se
levarmos em consideração que temos 2,5 milhões de torcedores, o número de 20
mil sócios equivale a 1% da torcida Atleticana e necessitamos de apenas mais 1%
ou seja, apenas 2% de toda nossa torcida para tornar esse projeto totalmente
possível.
Devemos levar em conta que o valor do sócio Furacão é muito
barato em vista do futebol caro que temos que administrar. Não podemos ficar
apenas dependentes das cotas de TV irrisórias e mal distribuídas, pois se
continuarmos dependendo de uma mudança do futebol brasileiro e uma divisão
justa de cotas e reconhecimento histórico do que somos hoje, esperaremos
sentados. Não podemos mais ser comparados com clubes pequenos, sem menosprezo a
ninguém, mas estamos em outro patamar. Com todo respeito ao Botafogo por
exemplo, mas não podemos mais aceitar que digam que o Botafogo, que tem uma
bela história, é maior que o Atlético, afinal ninguém pode continuar vivendo do
seu passado. Tem que viver do seu presente muito mais do que será seu futuro.
Por isso precisamos do engajamento de toda nossa torcida.
Robson – Tendo em
vista as seguidas promoções de ingressos, numa tentativa de levar nosso
torcedor ao estádio, como o senhor avalia a falta de retorno da torcida, sendo
que aparentemente apenas os sócios Furacão é que frequentam o estádio em grande
maioria nos dias de promoções?
Petraglia – Não
só apenas na promoção de ingressos, mas a tudo que se refere ao Atlético o
torcedor está deixando a desejar. Não tem havido um retorno ao menos razoável,
inclusive no consumo de produtos do próprio clube. Nosso torcedor está ainda
preso ao que fomos no passado e não ao que somos na atualidade. A mentalidade
de nosso torcedor tem que mudar para que veja o Atlético do presente e
acreditar nos projetos do clube. Alguns torcedores ainda acham que o milagre
virá por si só.
Futebol hoje em dia é profissionalizado na sua essência, não
existe mais aquele romantismo de quando o atleta jogava pela camisa, por amor
ao clube. Ele busca onde ganhar mais dinheiro, é profissionalismo puro. Não há
mais a identificação do atleta com o clube e o torcedor ainda não se
profissionalizou e acha que só torcer já é o suficiente e que quem está na
direção do clube tem a obrigação de dar alegrias a ele, os títulos, as
vitórias, os campeonatos, sem que ele participe ou faça um esforço para tornar
isso possível. O torcedor não quer saber se há dinheiro ou não, para ele não
importa, “nós queremos títulos e pronto”, esse é o pensamento do torcedor. Isso
é uma falácia, termo que já usei e que foi mal interpretado. Essa mentira de
que o time tem que vir primeiro, “construa um grande time que você terá
sócios”. Um grande time se desmancha e aqueles que vierem por um grande time,
irão embora e deixarão o clube na mão novamente, como já aconteceu, quando não
conseguirmos montar o grande time. Um grande time não ganha sempre e depois
entramos naquele círculo vicioso. Necessitamos de 40 mil sócios com time bom,
ruim ou médio para que o clube tenha equilíbrio em seu planejamento. Em um
certo momento, com certeza, o time irá ganhar, será campeão.
Robson – O
Presidente Salim foi feliz em um comentário na reunião da Assocap quando disse:
“Não posso contrair uma dívida sem ter a certeza de que vou receber o
suficiente para pagá-la”, ou seja, primeiramente temos que gerar receita,
receber, para depois aplicar, sem isso o futebol fica impossível de ser
praticado.
Petraglia - E não é só isso Robson, ninguém garante que
esse alto investimento irá se transformar em títulos. E corremos o risco de não
ganharmos nada, que é maior do que ganharmos. Nós tivemos de 1971 pra cá, 46
campeonatos brasileiros disputados e quem perdeu menos, perdeu 40, ou seja, de
46 times montados pelo clube que foi mais vezes campeão, 40 não atingiram o
objetivo e falo de times caros. Por isso não podemos ficar com essa loucura de
que investindo alto o torcedor virá, pois se não alcançarmos os títulos, mesmo
com um excelente plantel, o torcedor se afastará novamente. Como vou garantir
que fazendo um alto investimento o sócio virá depois para ajudar a pagar a
conta?
Podemos até comparar com o Corinthians, com a excelente
verba de TV que recebe, que teve que desmontar o time campeão brasileiro, pois
não teve como segurar. Montou outro bom time, mas não está obtendo o sucesso
esperado. Um time montado com muito dinheiro, abriram os cofres e estão atrás
do nosso na classificação que foi montado basicamente pela base do clube.
O sonho é possível, basta o torcedor do Atlético ter
paciência e nos ajudar nessa conquista.
FUTEBOL NO PRÓXIMO
ANO E CATEGORIAS DE BASE
FUTEBOL
Robson – Se o
Atlético se classificar para a próxima Libertadores, qual o projeto para o
futebol para o próximo ano?
Petraglia – O
futebol sempre será a prioridade absoluta e única. Terminamos de pagar as
contas do passado, fornecedores, bancos e pendências da construção do estádio,
concluímos o Boulevard, as lojas em frente ao estádio e terminamos as cozinhas,
além de toda a infraestrutura do estádio que estava inacabada. A partir do ano
que vem, teremos mais condições de nos dedicarmos ao futebol.
Robson – Mas o Atlético
tem um ônus com o BNDES ainda?
Petraglia – Mas
isso é outra coisa, é a longo prazo, para pagarmos em 20 anos. Falo do que o
Atlético devia da construção do estádio e os acúmulos a curto prazo. Alguns dos
quais estavam sendo executados, estavam em cartório, penhorando rendas, além de
mais dinheiro para terminar o estádio, um valor em torno de 55 milhões de
reais. Não estou falando do financiamento, pois fora o financiamento, havia
essa dívida que necessitava ser paga e conseguimos com muito esforço. Agora
temos alvará, licença dos bombeiros. Ano que vem teremos mais condições do que
esse ano para o futebol.
Com 2 vagas a mais na Libertadores a possibilidade de nos
classificarmos ficou maior. Indo a Libertadores montaremos um grande projeto
para conquistarmos as Américas, conquistar a Libertadores, sermos campeões.
Robson – O senhor
acredita no título da Libertadores?
Petraglia – Sim,
mas para isso precisamos de uma campanha para que os torcedores acreditem e se
associem. Que se associem mesmo aqueles que não podem vir a todos os jogos.
Temos 2,5 milhões de torcedores, se alguns não podem vir a todos os jogos que
venham 1 ou 2 jogos por mês, mas que ajudem o clube se associando, isso já
seria o suficiente de cada um.
Robson – Se
atingíssemos pelo menos 35 mil sócios, o senhor poderia prometer para o próximo
ano um grande time para a conquista da Libertadores?
Petraglia – Eu
não posso garantir absolutamente nada. Sempre cumpri minhas promessas, por isso
ninguém é obrigado a prometer, mas é obrigado a cumprir. O futebol é muito
relativo e aquilo que está em minhas mãos e que posso garantir, daí sim posso
prometer. Procuro cumprir minhas promessas e prometi que o Atlético será
campeão mundial nos 10 anos seguintes após a copa. Por isso as promessas são a
longo prazo.
Vejam o exemplo do Real Madri dos galácticos, o time mais
caro do futebol mundial, projetado para ganhar tudo que disputasse e que não
ganhou nada, nenhum título e foi uma decepção imensa para todos.
Se passaram apenas 2 anos da copa, terminamos o estádio no
primeiro ano. Estamos em uma possível classificação para a Libertadores no 2º
ano, mas ninguém faz nada sozinho, temos que buscar recursos, apoio, para
podermos investir no futebol.
CATEGORIAS DE BASE
Robson –Tenho
convicção absoluta e a maioria dos torcedores brasileiros também, de que
Atlético Paranaense e Santos são os clubes que mais revelam jogadores de
categorias de base no Brasil. Tivemos um período em que o São Paulo também era
um celeiro e que esse projeto estagnou e na última semana seus dirigentes
vieram a público anunciando a retomada dos trabalhos com as categorias de base.
Sabendo que o Atlético Paranaense é um dos clubes que mais revelam jogadores
pergunto: Quanto custa para manter a base do clube?
Petraglia – Cada
atleta custa para o clube R$ 3.500,00 em média por mês. Temos 4 categorias, sub
15, sub 17, sub 19 e sub 23 e mais o profissional.
Robson – Quantos
atletas temos por categoria hoje?
Petraglia – Temos
30 atletas em cada uma das 4 categorias da base, num total de 120 atletas ao
custo de R$ 3.500,00 cada um, chegamos a um custo anual de aproximadamente mais
ou menos 6 milhões de reais e não estou falando de CT, estádio, luz, água, sem
contar ainda outras despesas ou seja, a venda de um jogador como Otávio, por
exemplo, serviria para custear um ou dois anos das categorias de base.
O problema é que o torcedor pensa que esse dinheiro da venda
de um jogador, entra limpinho para o clube para aplicarmos em grandes times,
quando na verdade recebemos o valor em parcelas a longo prazo e não à vista.
Necessitamos vender certos atletas para sustentarmos o custo mensal dos mesmos,
do CT, do estádio e do time, já que as cotas de TV e a venda de ingressos nem
de longe geram a receita suficiente para mantermos toda essa estrutura que
temos hoje em dia.
A reclamação de parte
da torcida sobre as festas no estádio
Robson - A torcida reclamava que o estádio parecia
silencioso e vi algumas providências no sentido de promover festas para a
torcida, fale sobre esse novo projeto.
Petraglia - Reclamavam e reclamavam e reclamavam das
festas. No jogo contra o Cruzeiro fizemos uma grande festa, foi um espetáculo.
Festa nós sabemos fazer também, trouxemos gente preparada dos Estados Unidos.
Vamos rechear o estádio de LED´s, todos querem ver um espetáculo rubro negro e
verão. Deixamos as cores das cadeiras neutras para não atrapalharem a sequência
dos projetos.
Robson - Realmente acho uma besteira imensa essa
preocupação com as cores das cadeiras, uma bobagem sem sentido visto que temos
um estádio maravilhoso.
Petraglia - Pois é, se tivermos 40 mil torcedores no
estádio, qual será a cor das cadeiras? Querem o estádio rubro negro? Então
lotem o estádio Não faz sentido esse tipo de reclamação. A cor neutra também
serve para mostrar que o torcedor precisa colaborar com o clube e não apenas
reclamar. De que adianta serem vermelhas as cadeiras e o estádio continuar
vazio? Ou com 5 mil torcedores apenas? Pra que? Para que pareça que está cheio?
Isso é sem fundamento algum.
Robson – Esse
novo projeto de encher de LED´s a Arena, como será executado?
Petraglia – Por
isso a cor neutra das cadeiras. Vamos encher de LED´s os 3 níveis. A cor viva
de cadeiras atrapalha a projeção das imagens. A cor neutra é para que apareça
aquilo que quisermos projetar e com a alta resolução do LED, não importa se há
sol, ou se está chovendo, se é dia ou noite, o espetáculo será sempre maravilhoso
e original. Se for um evento em que o artista queira o estádio azul, amarelo,
vermelho, poderá ser feito sem problemas e as cadeiras não atrapalharão o
brilho do espetáculo. Se amanhã depois o Palmeiras quiser mandar alguns jogos
em nosso estádio, as luzes ficarão verdes, se o Coritiba necessitar utilizar
nosso estádio as luzes ficarão verdes para a torcida deles. Então não tem
cabimento esse tipo de reclamação, não tem nada a ver o meio com o fim.
Se fosse assim o Maracanã não teria a mística que tem. Por
isso é uma bobagem essa divisão, esse separatismo. A cegueira desse povo
realmente me entristece, é uma bobagem se preocupar com isso.
A torcida organizada
Robson – Para
encerrarmos, fale sobre os últimos conflitos envolvendo a diretoria do Atlético
e a torcida organizada. Na minha opinião o Atlético saiu na frente no sentido
de moralizar a torcida de uma forma geral para que se evite novos problemas,
percas de mando e o torcedor tenha um compromisso maior com o clube. Vimos
alguns dias atrás o que a torcida organizada do Corinthians fez no Maracanã,
cenas lamentáveis, bem como a do Palmeiras e outras organizadas de outros
clubes, ou seja, vejo isso como um desejo do clube de que a torcida organizada
se organize de uma forma geral e busque ela também evitar conflitos tanto
dentro quanto fora do estádio.
Petraglia – A
torcida Independente do São Paulo, por exemplo, é uma das mais violentas e
dizem até que algumas organizadas de clubes são dirigidas pelo PCC, não temos
nada a ver com isso, mas devemos estar atentos de uma forma geral ao nosso
torcedor.
Não temos nada contra e nem a favor das torcidas
organizadas, são grandes instituições. Sabemos que em todo lugar existem os
bons e os ruins. Na torcida organizada existem pessoas boas que querem torcer e
ajudar o Atlético, mas também existem aqueles que prejudicam o clube. Mas o que
queremos com isso é administrar a nossa torcida, que dentro do estádio o
Atlético administre a torcida de uma forma geral.
Dentro do estádio o Atlético quer organizar a festa, o
Atlético quer conduzir a torcida e não alguns que conduzam como queiram para o
bem ou para o mal. Eles podem continuar comercializando fora do estádio seus
produtos, mas dentro do estádio queremos a festa de toda a torcida e não só de
uma minoria, pois qualquer problema que vier a ocorrer, quem será penalizado é
o clube e não a torcida. Eles podem cantar suas músicas, torcer do jeito que
quiserem, mas quem vai comandar a festa é o Atlético. Por isso contratamos uma
empresa dos Estados Unidos, e o “show man” é brasileiro, com experiência para
conduzir esse espetáculo, como acontece na NFL, no vôlei e outros esportes pelo
mundo.
A torcida os Fanáticos quando vem para o estádio, tornam-se
torcedores do Atlético e eles devem vir para torcer com o estádio inteiro e
auxiliar o clube na festa. Quem gosta da Fanáticos pode ficar lá com eles sem
problema algum, mas queremos todo o estádio envolvido na festa.
No vôlei tivemos 35 mil pessoas fazendo festa, não ficamos
dependentes de meia dúzia de pessoas. Eles podem vender a sua marca, até por
questão de sobrevivência, fazer propaganda, mas fora do estádio. Não tenho nada
contra a marca deles.
Querem vaiar, vaiem, terminou o jogo e acham que não foi
bom, podem vaiar, mas depois do jogo. Mas não queremos mais que um menino que
está iniciando agora, seja vaiado porque errou um passe e acabe isso
contaminando o resto da torcida.
Estamos vendo casos no Brasil, em que muitos clubes estão
divididos de fora para dentro, onde a torcida organizada faz parte da gestão do
clube, como acontece no Corinthians, por exemplo, onde elas têm uma influência
enorme na diretoria. Tem clube que monta seu conselho deliberativo com
integrantes da torcida organizada e então deformasse os interesses e os
objetivos de uma comunidade e essa deformação é que queremos evitar.
Apenas queremos que dentro do estádio a festa seja do
Furacão, com nossa gente, nosso torcedor de uma forma geral, com a marca do
Atlético e com o estádio pronto.
O Atlético Paranaense quer sua torcida maior, quanto mais
vibrante melhor, quanto mais organizada melhor, mas torcendo para o Atlético,
usando a marca do Atlético, ajudando o Atlético.
O objetivo deve ser o Atlético, não pode haver outro
objetivo que não seja o Atlético.
O torcedor tem que torcer pelo Atlético, com o Atlético,
para que o Atlético seja cada vez maior e nossos sonhos possam ser
transformados em realidade em um futuro próximo.
Fantástico.Isso chama-se senso de realidade e visäo. Parabéns!
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